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Pior naufrágio no Mediterrâneo leva à morte de mais de 600 pessoas

Shirwan chega ao campo de Malakasa cedo pela manhã. Vem desde Düsseldorf, na Alemanha, para procurar pelo seu irmão Azad, que não sabe se está vivo ou se morreu no naufrágio que aconteceu no passado dia 14 de junho, nas águas do Mediterrâneo que banham a Grécia. Não vê o irmão desde 2015, quando fugiu da Síria e ainda era um adolescente. Do lado de fora das grades do campo estão dezenas de pessoas que esperam rever os seus entes queridos ou tentar saber o que lhes aconteceu. Shirwan abre caminho e, após uns minutos, consegue reconhecer a cara do irmão que agora está muito maior do que se lembrava. As grades de três metros não conseguem impedir um forte e longo abraço que esconde lágrimas e abafa soluços. Finalmente estão juntos passados 8 anos e o seu irmão mais novo é um dos poucos sobreviventes do maior naufrágio na Grécia em muitos anos.


Nas primeiras horas do dia 14 a traineira Adriana afundou-se a cerca de 80 km da região do Peloponeso. O barco sobrelotado partiu da Líbia com destino à Itália, levando entre 400 e 750 pessoas a bordo, a maioria estima-se serem originários da Síria, do Egito, do Paquistão e da Palestina. Relatos confirmam que os traficantes obrigaram mulheres e crianças - cerca de 100 - a ficarem no fundo da embarcação, assim como a maioria dos passageiros paquistaneses, deixando os homens, nomeadamente árabes, na parte de cima no convés, sendo a parte mais segura. Apenas 104 pessoas foram resgatadas com vida. Recuperaram-se cerca de 100 cadáveres, estimando-se que mais de 600 pessoas estejam desaparecidas.


As críticas e os protestos face à atuação da guarda costeira grega intensificaram-se, com sobreviventes e relatores a alegarem que o naufrágio foi provocado de forma intencional. As autoridades gregas negam as acusações e, apesar de estarem em curso investigações para apurar o que realmente aconteceu, os relatos de sobreviventes, de organizações a operar no local e das testemunhas não são consistentes com a versão das autoridades gregas.


Sabemos que as autoridades gregas foram alertadas por ativistas na manhã do dia 13, assim como pela Frontex. A guarda costeira grega afirma que um helicóptero localizou a traineira às 15:35, levando-os a avisar barcos próximos para mudarem de rota para assim poderem verificar as condições da embarcação.


A Alarm Phone - uma ONG de resgate marítimo – afirma que recebeu um alerta urgente vindo da traineira às 17:13, dizendo que estavam com problemas e que tinham cerca de 750 pessoas a bordo. Estavam na parte mais profunda do mar Mediterrâneo, a 5.200 metros, onde a guarda costeira grega é responsável pelos resgates. Esta, por sua vez, afirma que às 18:30 uma pessoa a bordo recusou o resgate e que quando chegaram ao local às 22:40, não identificaram qualquer problema com a embarcação. Declaram, então, que às 02:00 da manhã a traineira, sem qualquer razão aparente, começou a balançar intensamente para o lado direito e depois para o lado esquerdo o que fez com que tenha se tenha virado e afundado.

Traineira fotografada pela Guarda Costeira grega. EPA

A história é diferente para os sobreviventes do naufrágio. A viagem de Azad começou em maio, quando fugiu da Síria em direção à Líbia, onde passou duas semanas. Na manhã do dia 9 de junho embarcou na traineira para poder fugir da tortura das milícias líbias. Apesar dos avisos da família para não embarcar, o medo foi mais forte, levando-o a pagar 5.000 dólares a traficantes para poder chegar à Itália e depois reunir-se com o irmão que é enfermeiro na Alemanha.


Quando entrou na traineira, Azad foi colocado numa sala de armazenamento muito fria. Só podia ir para o convés se pagasse mais dinheiro. Muitos poucos passageiros tinham um colete salva-vidas – aparentemente os traficantes proibiram de os usar para assim haver mais espaço e vendiam-nos só a bordo do barco. Água e comida também só estavam disponíveis se pagasse mais. Azad conta que passados poucos dias após zarparem a situação começou a complicar-se mais: a comida e água acabaram e muitos passageiros começaram a beber urina e água do mar em desespero. Apenas sobravam algumas tâmaras e as lutas por comida começaram a agravar-se. Muitas pessoas desmaiavam e seis chegaram a morrer. Dentro do barco, os passageiros pediam por ajuda diversas vezes por rádio e aos barcos que passavam. Um pequeno alívio chegou quando dois cargueiros – Lucky Sailor e Faithful Warrior – passaram no final da tarde do dia 13 e atiraram comida e água, mas os passageiros ficaram mais agitados na ânsia de se salvarem, levando o barco a ceder de um lado com o peso dos passageiros que tentavam desesperadamente agarrar as garrafas de água que lhes eram atiradas.


Durante a travessia, o motor da traineira falhou por diversas vezes, mas naquele dia 13 chegou a guarda costeira grega que tentou por diversas vezes atar uma corda para a rebocar. Na terceira tentativa, relatos confirmam que, depois de atarem a corda, o barco grego arrancou muito depressa e a traineira girou para a esquerda e depois para a direita, tendo depois virado totalmente. “Todas as pessoas começaram a gritar, pessoas caiam ao mar e quando o barco virou nunca mais vimos ninguém”. O pânico alastrou-se e a grande parte das pessoas que estavam no fundo do barco, que eram mulheres e crianças, tiveram muito poucas hipóteses de escapar. Os que caíram ao mar tiveram de esforçar-se para conseguir nadar longe do poder de sucção do afundar do barco. Azad pensou que a sua hora tinha chegado, mas depois pensou na sua família e nadou com todas as suas forças. Conseguiu agarrar-se a um dos botes insufláveis lançados pela guarda costeira e foi puxado para bordo. “Não sei por quantas pessoas mortas passei…”.


Passada cerca de meia hora depois do naufrágio, começaram a chegar várias embarcações, tendo a primeira sido um super yacht – Mayan Queen – para resgatar quem permanecia no mar. A partir daí começou uma massiva operação de resgate.


Apenas 104 pessoas conseguiram sobreviver enquanto aproximadamente 600 mulheres, crianças e homens morriam afogados, sem qualquer colete salva-vidas ou ajuda.

Guarda Costeira grega carrega com sacos com os cadáveres encontrados. Stelios Misinas/Reuters

Investigações realizadas pela Forensis indicam que a guarda costeira grega teve uma responsabilidade crucial ao rebocar uma embarcação sobrelotada daquela dimensão, levando ao seu naufrágio, tendo depois retirado-se a grande velocidade, provocando ondas que bloquearam as hipóteses de salvamento, tendo os sobreviventes ainda esperado até meia hora que o barco voltasse para as ajudar.


As evidências demonstram que houve uma série de esforços, por parte das autoridades gregas, de distorcer e manipular provas, assim como de silenciar testemunhas. Foi possível descobrir que os barcos nas proximidades foram inicialmente requisitados para ajudarem no resgate, tendo sido posteriormente mandados sair do local depois da guarda costeira chegar ao local. Também, que as várias ofertas da Frontex para enviar ajuda aérea foram recusadas e que nenhuma das câmaras de vigilância, nem o sistema de rastreamento foram ativados nessa noite. Relativamente aos sobreviventes, as autoridades gregas confiscaram-lhes os telemóveis, não os tendo devolvido, suspeitando-se também de pressões para contarem uma mesma história, com claros sinais de manipulação.


Os poucos sobreviventes foram levados para o porto de Kalamata e depois para o campo de Malakasa, a norte de Atenas. A sua mobilidade e comunicações foram limitadas, especialmente a comunicação com jornalistas que está a ser impedida pelas autoridades gregas. O contacto com os familiares, que desesperados chegam de todas as partes do mundo, para confirmarem se os seus filhos, mulheres, irmãos e entes queridos estão vivos ou mortos, só pode ser feito através de grades. A todos os minutos chegam táxis e carros de aluguer à pequena praça em frente ao campo, de onde homens e mulheres saem, dirigindo-se à espessa vedação para tentar encontrar um rosto conhecido ou saber de qualquer informação. Não sabem de nada e os corpos encontrados não estão a ser identificados. As centenas de familiares permanecem na escuridão, sem informações e sem poderem prestar o devido respeito aos seus entes queridos mortos.



O desastre volta a trazer para o centro do debate europeu as migrações, o asilo, o controlo fronteiriço e os Direitos Humanos e coloca a UE numa posição frágil relativamente à gestão de movimentos migratórios e à externalização e securitização da sua fronteira. Muitos Estados-membros têm sido acusados de executar práticas violentas e ilegais, que violam os Direitos Humanos e o direito ao asilo. Para o jornal Der Spiegle permanecem duas questões sobre a sua atuação: são os naufrágios no Mediterrâneo tolerados, deixando as missões de resgate para o último minuto? Ou são os naufrágios provocados, numa tentativa desesperada de manter refugiados e migrantes económicos longe da costa europeia? Sabemos que o mar Mediterrâneo é a rota mais mortífera com mais de 27.500 pessoas mortas ou desaparecidas desde 2014. A atuação dos países mediterrâneos e da União Europeia parece esquecer a parte humana e o dever de ajudar quem mais precisa.


Os poucos sobreviventes e os muitos familiares perderam filhos, mulheres, maridos, irmãos e primos, com centenas de pessoas a morrerem numa das maiores tragédias num mar que é quase como um cemitério de pessoas que, com tanto medo de perder a vida, se agarraram desesperadamente à esperança de uma nova vida em paz e segurança. Felizmente não é este o cenário para Shirwan e Azad que podem desfrutar de mais tempo juntos. Os dois irmãos estão agora reunidos, exaustos, mas muito felizes. “Abraçámo-nos repetidamente. É como estar com sede, nunca tens água suficiente”.


Irmãos abraçam-se por entre as grades do campo Malakasa. Stelios Misinas / Reuters

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